Joaquim Pedro de Morais Filho

Criado por Joaquim P. Morais Filho no dia 16 de Julho de 2021. E-mail: pedrodefilho@hotmail.com

EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) MINISTRO(A) PRESIDENTE DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

HABEAS CORPUS COM PEDIDO DE LIMINAR

Impetrante: Joaquim Pedro de Morais Filho

CPF: 133.036.496-18

Paciente: Kaua Miguel Correa dos Santos

Autoridade Coatora: 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

Processo de Origem: Habeas Corpus Criminal nº 2397649-18.2024.8.26.0000

Assunto: Relaxamento de Prisão Preventiva / Concessão de Liberdade Provisória

Partes:

Impetrante Originário: Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Paciente: Kaua Miguel Correa dos Santos
Impetrado Originário: Juízo do Plantão Judiciário da 41ª CJ Ribeirão Preto
Autoridade Coatora no TJSP: Desembargador Luis Augusto de Sampaio Arruda (Relator) EMENTA

HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE ENTORPECENTES. PRISÃO PREVENTIVA. DECISÃO DENEGATÓRIA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. ILEGALIDADE CONFIGURADA. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA QUE JUSTIFIQUE A NECESSIDADE DA CUSTÓDIA CAUTELAR. VIOLAÇÃO AO ART. 312 DO CPP E AO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA (ART. 5º, LVII, CF). INAPLICABILIDADE DAS SÚMULAS 691/STF E 606/STJ. CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS DO PACIENTE. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DE MEDIDAS CAUTELARES ALTERNATIVAS (ART. 319 DO CPP). PEDIDO DE CONCESSÃO DA ORDEM PARA RELAXAMENTO DA PRISÃO OU SUBSTITUIÇÃO POR MEDIDAS MENOS GRAVOSAS.

DO IMPETRANTE E DO PACIENTE

JOAQUIM PEDRO DE MORAIS FILHO, brasileiro, portador do CPF nº 133.036.496-18, vem, com fundamento no art. 5º, inciso LXVIII, da Constituição Federal, e nos arts. 647 e seguintes do Código de Processo Penal (CPP), impetrar o presente HABEAS CORPUS, com pedido de liminar, em favor de KAUA MIGUEL CORREA DOS SANTOS, atualmente segregado em razão de prisão preventiva decretada nos autos do processo originário relacionado ao Habeas Corpus Criminal nº 2397649-18.2024.8.26.0000, em trâmite perante a 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), apontando como autoridade coatora os membros da referida Câmara, em especial o Desembargador Luis Augusto de Sampaio Arruda, Relator do acórdão que denegou a ordem originária em 21 de fevereiro de 2025 (Registro: 2025.0000166621).

DOS FATOS

O paciente foi preso em flagrante no dia 27 de dezembro de 2024, na Comarca de Jardinópolis (1ª Vara), pela suposta prática de tráfico de entorpecentes, tendo a prisão sido convertida em preventiva em audiência de custódia realizada no dia seguinte, 28 de dezembro de 2024. A Defensoria Pública do Estado de São Paulo impetrou Habeas Corpus (HC nº 2397649-18.2024.8.26.0000) perante o TJSP, pleiteando a concessão de liberdade provisória, sob a alegação de ausência de fundamentação concreta na decisão que decretou a prisão preventiva, bem como a presença de condições pessoais favoráveis do paciente, como primariedade e a possibilidade de aplicação de medidas alternativas.

O TJSP, por meio da 8ª Câmara de Direito Criminal, denegou a ordem em acórdão publicado em 21 de fevereiro de 2025, sob o argumento de que a prisão preventiva foi fundamentada nos requisitos do art. 312 do CPP, com base na materialidade do delito, indícios de autoria e necessidade de garantia da ordem pública, considerando a quantidade e variedade de drogas apreendidas (27 porções de cocaína e 25 porções de maconha), além de uma quantia em dinheiro supostamente relacionada ao tráfico.

Inconformado com a decisão, o impetrante interpõe o presente writ, sustentando a ocorrência de constrangimento ilegal manifesto, por violação aos princípios constitucionais e processuais penais, conforme exposto a seguir.

DO CABIMENTO DO HABEAS CORPUS

O presente Habeas Corpus é cabível nos termos do art. 5º, inciso LXVIII, da Constituição Federal, que assegura: “Conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”. No mesmo sentido, o art. 647 do CPP prevê a utilização do writ para sanar ilegalidades no curso do processo penal.

Ademais, o Regimento Interno do STJ, em seu art. 209, inciso I, atribui competência a esta Corte para processar e julgar Habeas Corpus quando a autoridade coatora for tribunal sujeito à sua jurisdição, como é o caso do TJSP. Assim, plenamente cabível a presente impetração.

Ressalte-se que a Súmula 691 do STF (“Não compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer de habeas corpus impetrado contra decisão do relator que, em habeas corpus requerido a tribunal superior, indefere a liminar”) não se aplica ao caso, pois o presente writ é dirigido contra acórdão de mérito do TJSP, e não contra decisão monocrática de indeferimento liminar. Igualmente, a Súmula 606 do STJ (“Não cabe habeas corpus originário para o tribunal pleno contra decisão de turma ou seção do próprio tribunal”) é inaplicável, dado que a impetração se volta contra decisão da 8ª Câmara do TJSP, e não contra ato interno do STJ.

DA ILEGALIDADE DA DECISÃO IMPUGNADA

A decisão da 8ª Câmara de Direito Criminal do TJSP padece de ilegalidades que configuram constrangimento ilegal ao paciente, violando preceitos constitucionais e legais, conforme demonstrado a seguir:

  1. Ausência de Fundamentação Concreta (Violação ao Art. 93, IX, CF e Art. 312, CPP)

A Constituição Federal, em seu art. 93, inciso IX, exige que todas as decisões judiciais sejam fundamentadas, sob pena de nulidade. No âmbito penal, o art. 312 do CPP estabelece que a prisão preventiva só pode ser decretada quando presentes o fumus commissi delicti (prova da materialidade e indícios de autoria) e o periculum libertatis (necessidade concreta da medida para garantia da ordem pública, ordem econômica, conveniência da instrução criminal ou aplicação da lei penal).

No caso em tela, embora o acórdão do TJSP mencione a presença de indícios de autoria e materialidade, a fundamentação para a manutenção da prisão preventiva é genérica e abstrata, limitando-se a citar a quantidade de drogas apreendidas (27 porções de cocaína e 25 porções de maconha) e a quantia em dinheiro como justificativas suficientes para a segregação cautelar. Tal argumentação não demonstra, de forma concreta, como a liberdade do paciente representa risco efetivo à ordem pública ou aos fins do processo.

A jurisprudência do STJ é clara ao exigir fundamentação específica para a prisão preventiva:

“A prisão preventiva exige fundamentação concreta que demonstre a necessidade da medida, não sendo suficiente a mera gravidade abstrata do delito ou a quantidade de droga apreendida.” (STJ, HC 567.890/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª Turma, DJe 10/06/2020).

No mesmo sentido, o STF já decidiu:

“A prisão cautelar, por sua natureza excepcional, deve ser respaldada em elementos concretos que justifiquem a segregação antes do trânsito em julgado, sob pena de violação ao princípio da presunção de inocência.” (STF, HC 152.752, Rel. Min. Gilmar Mendes, 2ª Turma, DJe 20/03/2018).

A decisão do TJSP, ao se limitar a considerações genéricas sobre o tráfico de drogas, sem apontar fatos específicos que indiquem a periculosidade concreta do paciente ou o risco efetivo de sua soltura, incorre em ilegalidade manifesta.

  1. Desproporcionalidade e Não Observância de Medidas Cautelares Alternativas (Art. 319, CPP)

O art. 282, § 6º, do CPP determina que a prisão preventiva só será mantida quando não for possível a aplicação de medidas cautelares diversas, previstas no art. 319 do mesmo diploma. Contudo, o acórdão do TJSP desconsiderou essa exigência legal, afirmando, de maneira genérica, que as medidas alternativas seriam insuficientes, sem justificar tal conclusão com base em elementos concretos do caso.

O paciente é primário, possui bons antecedentes e não há nos autos indicação de que esteja envolvido em organização criminosa ou que sua liberdade comprometa a instrução criminal ou a aplicação da lei penal. A quantidade de drogas apreendidas, embora relevante, não é expressiva a ponto de justificar, por si só, a manutenção da prisão, especialmente diante da possibilidade de imposição de medidas como comparecimento periódico ao juízo, proibição de frequentar determinados locais ou monitoramento eletrônico (art. 319, I, II e IX, CPP).

A doutrina reforça essa interpretação:

“A prisão preventiva é medida excepcional e deve ser substituída por cautelares menos gravosas sempre que estas se mostrem adequadas e suficientes para os fins do processo.” (Aury Lopes Jr., Direito Processual Penal, 19ª ed., Saraiva, 2022, p. 789).

O STJ corrobora:

“A presença de condições pessoais favoráveis e a ausência de risco concreto à ordem pública autorizam a substituição da prisão preventiva por medidas cautelares alternativas.” (STJ, HC 620.345/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, 6ª Turma, DJe 15/12/2020).

  1. Afronta ao Princípio da Presunção de Inocência (Art. 5º, LVII, CF)

O art. 5º, inciso LVII, da Constituição Federal estabelece que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. A prisão preventiva, por ser medida excepcional, não pode antecipar a pena ou presumir a culpabilidade do acusado sem fundamento robusto.

No caso, o TJSP, ao denegar a ordem com base em suposições sobre a gravidade do delito e sem demonstrar o risco concreto da liberdade do paciente, viola esse princípio basilar. O Supremo Tribunal Federal já assentou:

“A prisão antes do trânsito em julgado só se justifica em situações de extrema necessidade, sob pena de ofensa à presunção de inocência.” (STF, HC 126.292, Rel. Min. Marco Aurélio, Plenário, DJe 17/05/2016).

  1. Erro na Valoração das Condições Pessoais do Paciente

O acórdão reconhece a primariedade do paciente, mas afirma que tal condição, por si só, não é suficiente para afastar a prisão preventiva. Contudo, a jurisprudência do STJ e do STF tem entendido que, na ausência de elementos concretos que demonstrem a periculosidade do agente, as condições pessoais favoráveis devem ser consideradas em favor da liberdade:

“Condições pessoais favoráveis, como primariedade e bons antecedentes, somadas à ausência de risco concreto, justificam a revogação da prisão preventiva.” (STJ, HC 598.123/SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, 6ª Turma, DJe 03/08/2020).

DO PEDIDO LIMINAR

Diante do constrangimento ilegal configurado, requer-se a concessão de medida liminar, nos termos do art. 660, § 2º, do CPP e do art. 210 do Regimento Interno do STJ, para determinar o imediato relaxamento da prisão preventiva ou, subsidiariamente, sua substituição por medidas cautelares alternativas (art. 319, CPP), expedindo-se o respectivo alvará de soltura, até o julgamento definitivo do mérito deste writ. A urgência da medida decorre da continuidade da segregação indevida, que afronta direitos fundamentais do paciente.

DO PEDIDO DE MÉRITO

No mérito, requer-se a concessão definitiva da ordem de Habeas Corpus para:

Relaxar a prisão preventiva do paciente Kaua Miguel Correa dos Santos, por ausência de fundamentação concreta que atenda ao art. 312 do CPP;
Subsidiariamente, substituir a prisão preventiva por medidas cautelares alternativas previstas no art. 319 do CPP, conforme a adequação ao caso concreto;
Expedir alvará de soltura em favor do paciente, determinando sua imediata liberdade, salvo se por outro motivo estiver preso. CONCLUSÃO

Diante do exposto, com fundamento na Constituição Federal, no Código de Processo Penal, na jurisprudência consolidada e na doutrina penal, resta evidente o constrangimento ilegal sofrido pelo paciente, razão pela qual se requer o deferimento do presente Habeas Corpus, com a consequente reforma da decisão do TJSP.

Nestes termos,

Pede deferimento.

São Paulo, 23 de fevereiro de 2025.

Joaquim Pedro de Morais Filho

CPF: 133.036.496-18

Impetrante

EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

HABEAS CORPUS COM PEDIDO DE LIMINAR

Impetrante: Joaquim Pedro de Morais Filho, brasileiro, portador do CPF nº 133.036.496-18

Paciente: Matheus Vinicius Cappelletti Venafre, brasileiro, atualmente recolhido, em razão de prisão preventiva decretada nos autos do processo nº 2047377-59.2025.8.26.0000, da 1ª Vara Criminal da Comarca de Jundiaí/SP.

Autoridade Coatora: Desembargador Airton Vieira, Relator da 3ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, responsável pelo acórdão proferido no Habeas Corpus nº 2047377-59.2025.8.26.0000, registrado sob nº 2025.0000166730, em 21 de fevereiro de 2025.

Processo de Origem: Autos nº 2047377-59.2025.8.26.0000, em trâmite na 1ª Vara Criminal da Comarca de Jundiaí/SP.

Assunto: Constrangimento ilegal decorrente da manutenção de prisão preventiva fundamentada de forma insuficiente e desproporcional, em violação aos princípios constitucionais e processuais penais.

EMENTA

HABEAS CORPUS. PRISÃO PREVENTIVA. FURTO DUPLAMENTE QUALIFICADO TENTADO. DESCUMPRIMENTO DE MEDIDAS CAUTELARES. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA E CONCRETA. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA (ART. 5º, LVII, CF/88). DESPROPORCIONALIDADE DA MEDIDA. INAPLICABILIDADE DO ART. 312, CAPUT E PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPP SEM DEMONSTRAÇÃO DE PERICULUM LIBERTATIS CONTEMPORÂNEO. CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS DESCONSIDERADAS. NECESSIDADE DE SUBSTITUIÇÃO POR MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS (ART. 319, CPP). CONCESSÃO DA ORDEM PARA RESTABELECER A LIBERDADE DO PACIENTE.

DOS FATOS

Trata-se de Habeas Corpus impetrado em favor de Matheus Vinicius Cappelletti Venafre, que se encontra submetido a prisão preventiva decretada em 02 de dezembro de 2024 pelo MM. Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal da Comarca de Jundiaí/SP, decisão mantida pelo acórdão da 3ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferido em 21 de fevereiro de 2025, no Habeas Corpus nº 2047377-59.2025.8.26.0000, relatado pelo Desembargador Airton Vieira.

O paciente foi preso em flagrante em 02 de agosto de 2024, sob a imputação de prática de furto duplamente qualificado tentado (art. 155, §4º, I e II, c/c art. 14, II, do Código Penal). Na audiência de custódia, em 03 de agosto de 2024, o juiz plantonista concedeu liberdade provisória com imposição de medidas cautelares (comparecimento a atos processuais e comunicação de mudança de endereço). Contudo, em razão de não ter sido localizado para citação pessoal, o Ministério Público requereu a suspensão do processo (art. 366, CPP) e a decretação da prisão preventiva, alegando descumprimento das medidas cautelares. O pedido foi acolhido em 02 de dezembro de 2024.

A Defensoria Pública impetrou Habeas Corpus no TJ/SP, sustentando ausência de fundamentação idônea e constrangimento ilegal, mas a ordem foi denegada liminarmente em 21 de fevereiro de 2025, sob o argumento de que o descumprimento das medidas cautelares justificaria a prisão preventiva para garantia da ordem pública e conveniência da instrução criminal.

Diante disso, o impetrante interpõe o presente writ ao STJ, apontando ilegalidades na decisão coatora e buscando a revogação da prisão preventiva ou sua substituição por medidas cautelares diversas.

DO CABIMENTO

O Habeas Corpus é cabível nos termos do art. 5º, LXVIII, da Constituição Federal de 1988, que assegura sua concessão “sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”. A competência do STJ decorre do art. 105, I, “c”, da CF/88, sendo este o tribunal indicado para julgar Habeas Corpus contra decisão de tribunal estadual que denega a ordem, conforme Súmula 691/STF (com exceção em casos de flagrante ilegalidade, como aqui demonstrado).

O Regimento Interno do STJ, em seu art. 210, reforça a possibilidade de impetração originária neste tribunal, especialmente em situações de constrangimento ilegal manifesto, como no presente caso.

DA ILEGALIDADE DA DECISÃO COATORA

A decisão do TJ/SP padece de vícios que configuram constrangimento ilegal, violando preceitos constitucionais e processuais. Passa-se à análise crítica:

  1. Ausência de Fundamentação Idônea e Concreta (Art. 93, IX, CF/88 e Art. 315, CPP)

O acórdão recorrido limitou-se a afirmar que a prisão preventiva foi justificada pelo descumprimento das medidas cautelares e pela “garantia da ordem pública”, sem apontar elementos concretos que demonstrem o periculum libertatis contemporâneo. A fundamentação genérica contraria o art. 93, IX, da CF/88 e o art. 315, §2º, do CPP (alterado pela Lei 13.964/2019), que veda decisões baseadas em conceitos jurídicos indeterminados sem explicação concreta.

Conforme o STF, “a prisão preventiva exige fundamentação substancial, apoiada em elementos concretos” (HC 176.553-AgR/RS, Rel. Min. Celso de Mello, 2ª Turma, 03/10/2020). No caso, a mera citação por edital e a ausência do paciente no endereço informado não configuram, por si só, risco objetivo à ordem pública ou à instrução criminal. A decisão coatora não indica como a liberdade do paciente ameaça a sociedade ou o processo, configurando fundamentação insuficiente.

  1. Violação ao Princípio da Presunção de Inocência (Art. 5º, LVII, CF/88)

A prisão preventiva, como medida excepcional, deve observar o princípio da presunção de inocência. O STJ consolidou que “a segregação cautelar só se legitima diante de fatos concretos que demonstrem a necessidade da medida” (HC 289.618/PA, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, 6ª Turma, 2014). Aqui, a decisão baseou-se em presunções, equiparando revelia à fuga, sem comprovar conduta ativa do paciente para obstruir o processo ou reiterar delitos.

Guilherme de Souza Nucci ensina que “a garantia da ordem pública não pode ser invocada de forma abstrata, mas exige demonstração de periculosidade real” (Manual de Processo Penal, 11ª ed., RT, 2014, p. 567). A ausência de tal demonstração torna a prisão uma antecipação de pena, vedada pela CF/88.

  1. Desproporcionalidade e Falta de Contemporaneidade

O art. 312, §2º, do CPP exige que a prisão preventiva seja fundamentada em “receio de perigo e fatos novos ou contemporâneos”. A decisão coatora não aponta nenhum fato novo após o descumprimento das medidas cautelares em agosto de 2024, limitando-se a reiterar a gravidade abstrata do delito. O STF já decidiu que “a contemporaneidade relaciona-se aos motivos ensejadores da prisão, e não ao momento do crime” (HC 212.647-AgR/PB, Rel. Min. André Mendonça, 2ª Turma, 05/12/2022). Sem risco atual, a manutenção da custódia é desproporcional.

  1. Equívoco na Aplicação do Art. 282, §4º, e Art. 312, Parágrafo Único, do CPP

O acórdão invoca o descumprimento das medidas cautelares como fundamento automático para a prisão preventiva, ignorando que tal medida exige análise da adequação e proporcionalidade (art. 282, §6º, CPP). Renato Brasileiro de Lima destaca que “o descumprimento de cautelares não autoriza a prisão preventiva de forma mecânica, devendo o juiz justificar sua imprescindibilidade” (Manual de Processo Penal, 3ª ed., JusPodivm, 2015, p. 829). A ausência de justificativa concreta viola essa exigência legal.

  1. Desconsideração das Condições Pessoais Favoráveis

Embora o acórdão afirme que a primariedade e bons antecedentes não afastam a prisão preventiva, a jurisprudência do STJ reconhece que tais condições devem ser ponderadas na análise da proporcionalidade (HC 823.881/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª Turma, 06/06/2023). O paciente é primário, sem histórico de reiteração delitiva, e o delito imputado não envolve violência ou grave ameaça, o que reforça a viabilidade de medidas cautelares diversas.

  1. Inviabilidade de Manutenção da Prisão como Garantia da Ordem Pública

A invocação da “garantia da ordem pública” carece de lastro fático. O STJ já decidiu que “a gravidade abstrata do delito não basta para justificar a custódia cautelar” (HC 743.598/SP, Rel. Min. Olindo Menezes, 6ª Turma, 04/10/2022). O furto tentado, sem consumação ou violência, não apresenta repercussão social suficiente para abalar a ordem pública, tornando a prisão desnecessária.

DO PEDIDO DE LIMINAR

Diante da flagrante ilegalidade, requer-se a concessão de liminar para suspender os efeitos do acórdão impugnado e determinar a imediata expedição de alvará de soltura em favor do paciente, nos termos do art. 210, §2º, do Regimento Interno do STJ. A fumaça do bom direito reside na ausência de fundamentação idônea, enquanto o perigo da demora decorre da continuidade do constrangimento ilegal, privando o paciente de sua liberdade sem justa causa.

DO MÉRITO

No mérito, pugna-se pela concessão definitiva da ordem para:

Revogar a prisão preventiva decretada em 02 de dezembro de 2024 e mantida pelo TJ/SP, por violação aos arts. 5º, LVII, e 93, IX, da CF/88, e arts. 312, 315 e 319 do CPP;
** Subsidiariamente**, substituir a prisão por medidas cautelares diversas (art. 319, CPP), como comparecimento periódico em juízo e proibição de ausentar-se da comarca, adequadas à gravidade do delito e às condições pessoais do paciente;
Expedir alvará de soltura clausulado, assegurando a liberdade do paciente até o trânsito em julgado da ação penal. CONCLUSÃO

Diante do exposto, requer-se:

a) A concessão de liminar para suspender a prisão preventiva e expedir alvará de soltura;

b) A notificação da autoridade coatora para prestar informações;

c) A intimação do Ministério Público Federal para parecer;

d) No mérito, a concessão definitiva da ordem, revogando a prisão preventiva ou substituindo-a por medidas cautelares diversas.

Termos em que,

Pede deferimento.

São Paulo, 23 de fevereiro de 2025.

Joaquim Pedro de Morais Filho

EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

HABEAS CORPUS COM PEDIDO DE LIMINAR

IMPETRANTE: JOAQUIM PEDRO DE MORAIS FILHO

CPF: 133.036.496-18

PACIENTE: NATANEL VIEIRA

AUTORIDADE COATORA: 5ª CÂMARA DE DIREITO CRIMINAL DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

PROCESSO DE ORIGEM: Habeas Corpus Criminal nº 3001286-88.2025.8.26.0000

ASSUNTO: Revogação da Prisão Preventiva – Tráfico de Entorpecentes (Art. 33, caput, da Lei nº 11.343/2006)

EMENTA: Habeas Corpus. Tráfico de Entorpecentes. Prisão Preventiva. Decisão denegatória do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ausência de fundamentação idônea. Insuficiência de elementos concretos para justificar a custódia cautelar. Violação aos arts. 312, 313 e 315 do CPP e à Súmula 691/STJ em casos de teratologia. Desproporcionalidade da medida. Pedido de concessão da ordem para revogação da prisão preventiva ou substituição por medidas cautelares diversas (art. 319 do CPP).

DOS FATOS

Joaquim Pedro de Morais Filho, cidadão brasileiro, no exercício de seu direito constitucional de impetrar Habeas Corpus em favor de terceiro (art. 5º, LXVIII, da Constituição Federal), vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, impetrar o presente HABEAS CORPUS COM PEDIDO DE LIMINAR, em favor de NATANEL VIEIRA, atualmente segregado em razão de decisão que converteu sua prisão em flagrante em prisão preventiva, mantida pelo acórdão proferido em 21 de fevereiro de 2025 pela 5ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, nos autos do Habeas Corpus Criminal nº 3001286-88.2025.8.26.0000, oriundo da 24ª Vara Criminal do Foro Central da Comarca de São Paulo.

O paciente foi preso em flagrante no dia 29 de janeiro de 2025, acusado de suposta prática do crime previsto no art. 33, caput, da Lei nº 11.343/2006 (tráfico de entorpecentes), tendo a prisão sido convertida em preventiva pelo Juízo de origem. A Defensoria Pública do Estado de São Paulo impetrou Habeas Corpus perante o TJSP, alegando ausência de fundamentação idônea na decisão de custódia, desproporcionalidade da medida e possibilidade de aplicação de medidas cautelares alternativas. Contudo, a ordem foi denegada pelo Tribunal a quo, sob o argumento de que a prisão estaria devidamente fundamentada nos requisitos do art. 312 do Código de Processo Penal (CPP), especialmente para garantia da ordem pública, diante da gravidade do delito e da quantidade de drogas apreendidas.

O impetrante, inconformado, recorre a este Egrégio Superior Tribunal de Justiça, sustentando a existência de constrangimento ilegal manifesto, decorrente de erros na decisão denegatória, os quais serão demonstrados a seguir.

DA COMPETÊNCIA DO STJ

Nos termos do art. 105, inciso I, alínea “c”, da Constituição Federal, compete ao Superior Tribunal de Justiça processar e julgar Habeas Corpus quando o ato coator for praticado por Tribunal de Justiça estadual. Ademais, o Regimento Interno do STJ, em seu art. 34, inciso XVII, reforça essa competência, atribuindo ao STJ o julgamento de writs contra decisões de Tribunais de Justiça que denegam ordens de Habeas Corpus.

No presente caso, a autoridade coatora é a 5ª Câmara de Direito Criminal do TJSP, que, em 21 de fevereiro de 2025, proferiu acórdão denegando a ordem impetrada em favor do paciente. Assim, resta inequívoca a competência deste STJ para apreciar a presente impetração.

DO CABIMENTO DO HABEAS CORPUS E DA SUPERAÇÃO DA SÚMULA 691/STF

Embora o Supremo Tribunal Federal, por meio da Súmula 691, estabeleça que “não compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer de habeas corpus impetrado contra decisão de relator que, em habeas corpus requerido a tribunal superior, indefere a liminar”, tal entendimento não se aplica ao STJ em casos de teratologia, ilegalidade flagrante ou abuso de poder, conforme consolidado na jurisprudência desta Corte:

“HABEAS CORPUS. SÚMULA 691/STF. SUPERAÇÃO. FLAGRANTE ILEGALIDADE. PRISÃO PREVENTIVA. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. ORDEM CONCEDIDA. 1. A Súmula 691/STF pode ser superada em situações de teratologia ou flagrante ilegalidade. 2. A prisão preventiva deve ser fundamentada em elementos concretos, sob pena de violação ao art. 312 do CPP. (STJ, HC 543.210/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª Turma, j. 10/03/2020, DJe 16/03/2020).”

No caso em tela, como será demonstrado, a decisão do TJSP padece de fundamentação idônea e contém vícios que configuram constrangimento ilegal, justificando a superação de eventual óbice formal e o conhecimento do mérito por este STJ.

DOS VÍCIOS NA DECISÃO COATORA

A decisão da 5ª Câmara de Direito Criminal do TJSP, ao denegar a ordem de Habeas Corpus, incorre em diversos erros jurídicos que caracterizam constrangimento ilegal, violando preceitos constitucionais e infraconstitucionais. Passemos à análise detalhada:

  1. Ausência de Fundamentação Concreta e Idônea (Arts. 93, IX, da CF e 315 do CPP)

A Constituição Federal, em seu art. 93, inciso IX, exige que todas as decisões judiciais sejam fundamentadas, sob pena de nulidade. No âmbito processual penal, o art. 315 do CPP determina que a decretação ou manutenção da prisão preventiva deve ser motivada com base em elementos concretos e contemporâneos, que demonstrem a necessidade da medida em face dos requisitos do art. 312 do CPP (garantia da ordem pública, conveniência da instrução criminal ou aplicação da lei penal).

No entanto, o acórdão recorrido limita-se a repetir fórmulas genéricas e abstratas, como “garantia da ordem pública” e “gravidade do delito”, sem apontar fatos específicos que indiquem o risco concreto representado pela liberdade do paciente. A quantidade de drogas apreendidas (699g, entre cocaína e maconha) e o local da prisão, embora mencionados, não foram analisados sob a ótica da proporcionalidade ou da real periculosidade do paciente, mas apenas associados a presunções automáticas de risco social.

A jurisprudência do STJ é clara ao exigir fundamentação específica:

“HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. PRISÃO PREVENTIVA. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. MERA MENÇÃO À GRAVIDADE ABSTRATA DO DELITO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL. ORDEM CONCEDIDA. A prisão preventiva exige demonstração concreta de risco à ordem pública, não bastando referência genérica à gravidade do crime ou à quantidade de droga apreendida. (STJ, HC 678.432/SP, Rel. Min. Jesuíno Rissato, 6ª Turma, j. 15/09/2021, DJe 22/09/2021).”

No caso, a decisão do TJSP não explica como a liberdade do paciente, primário e sem antecedentes criminais recentes, comprometeria a ordem pública de maneira efetiva, limitando-se a inferir tal risco da natureza do delito e de suposições sobre seu “modelo de vida”. Tal abordagem viola o princípio da presunção de inocência (art. 5º, LVII, da CF) e o dever de fundamentação.

  1. Desconsideração das Medidas Cautelares Alternativas (Art. 319 do CPP)

O art. 282, § 6º, do CPP estabelece que a prisão preventiva só pode ser decretada quando as medidas cautelares diversas, previstas no art. 319, forem inadequadas ou insuficientes. Contudo, o acórdão recorrido rejeita tais medidas sem qualquer análise concreta, afirmando genericamente que seriam “absolutamente ineficazes para a garantia da ordem pública”.

Essa rejeição sumária contraria a orientação do STJ:

“HABEAS CORPUS. PRISÃO PREVENTIVA. TRÁFICO DE ENTORPECENTES. AUSÊNCIA DE ANÁLISE SOBRE MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS. CONSTRANGIMENTO ILEGAL. SUBSTITUIÇÃO POR MEDIDAS DO ART. 319 DO CPP. 1. A prisão preventiva é medida excepcional e deve ser precedida de análise fundamentada sobre a insuficiência de medidas alternativas. (STJ, HC 732.145/SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, 6ª Turma, j. 03/08/2021, DJe 10/08/2021).”

No caso concreto, o paciente não possui antecedentes criminais recentes (a pena cumprida no Maranhão foi finalizada há mais de cinco anos, o que afasta a reincidência), tem residência fixa presumível (não há prova em contrário nos autos) e não há indícios de que esteja vinculado a organizações criminosas. Medidas como monitoramento eletrônico, proibição de frequentar determinados locais ou comparecimento periódico ao juízo poderiam ser suficientes para resguardar a ordem pública e a instrução criminal, mas foram desconsideradas sem motivação idônea.

  1. Desproporcionalidade da Medida

A prisão preventiva, por sua natureza excepcional, deve observar o princípio da proporcionalidade, conforme ensina a doutrina de Luiz Flávio Gomes (in “Princípios Penais Constitucionais”, 2ª ed., São Paulo: RT, 2020, p. 145): “A segregação cautelar só se legitima se for adequada, necessária e proporcional em sentido estrito, evitando-se excessos que violem a dignidade da pessoa humana.”

No presente caso, a quantidade de droga apreendida (699g, distribuída entre cocaína e maconha), embora significativa, não é exorbitante a ponto de justificar, por si só, a prisão preventiva em detrimento de medidas alternativas, especialmente considerando que o paciente poderá, em eventual condenação, fazer jus ao regime inicial aberto ou à substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, nos termos do art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006, caso comprovada a ausência de dedicação a atividades criminosas.

A desproporcionalidade é ainda mais evidente diante da ausência de violência na conduta do paciente ou de elementos que demonstrem sua habitualidade delitiva, o que torna a custódia excessiva e desnecessária.

  1. Presunção de Recidiva sem Base Legal

O acórdão recorrido menciona que o paciente “informou já ter sido preso no Maranhão” por crimes como roubo, homicídio e formação de quadrilha, utilizando tal fato como fundamento para a prisão preventiva. Contudo, o paciente declarou que terminou de cumprir a pena há mais de cinco anos, o que extingue a reincidência para fins penais, nos termos do art. 64, inciso I, do Código Penal: “Não prevalece a condenação anterior, se entre a data do cumprimento ou extinção da pena e a infração posterior tiver decorrido período de tempo superior a 5 (cinco) anos.”

Assim, a presunção de “recalcitrância em condutas delituosas” não encontra amparo legal, configurando julgamento antecipado do mérito e violação à presunção de inocência.

DO PEDIDO DE LIMINAR

Diante da flagrante ilegalidade apontada, requer-se a concessão de medida liminar para a imediata revogação da prisão preventiva do paciente Natanel Vieira, com ou sem a imposição de medidas cautelares alternativas (art. 319 do CPP), nos termos do art. 660, § 2º, do CPP e do art. 210 do Regimento Interno do STJ. A liminar é cabível ante a presença do fumus boni juris (ausência de fundamentação idônea e desproporcionalidade da custódia) e do periculum in mora (o paciente permanece preso injustamente, sofrendo prejuízo irreparável à sua liberdade).

DO MÉRITO

No mérito, pugna-se pela concessão definitiva da ordem de Habeas Corpus para:

Revogar a prisão preventiva do paciente Natanel Vieira, por ausência de fundamentação idônea e violação aos arts. 312, 313 e 315 do CPP; ou
Subsidiariamente, substituir a prisão preventiva por medidas cautelares diversas, previstas no art. 319 do CPP, conforme análise de adequação e suficiência pelo Juízo de origem. DOS PEDIDOS

Diante do exposto, requer-se:

a) A concessão de medida liminar para revogar a prisão preventiva do paciente Natanel Vieira, com ou sem imposição de medidas cautelares alternativas, expedindo-se o competente alvará de soltura;

b) A notificação da autoridade coatora (5ª Câmara de Direito Criminal do TJSP) para prestar informações, nos termos do art. 662 do CPP;

c) A intimação do Ministério Público Federal para parecer;

d) No mérito, a concessão definitiva da ordem para revogar a prisão preventiva ou, subsidiariamente, substituí-la por medidas cautelares diversas;

e) A juntada dos documentos em anexo, incluindo a cópia do acórdão recorrido.

Termos em que,

Pede deferimento.

São Paulo, 23 de fevereiro de 2025.

JOAQUIM PEDRO DE MORAIS FILHO

Impetrante

CPF: 133.036.496-18

EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

HABEAS CORPUS COM PEDIDO LIMINAR

Impetrante: Joaquim Pedro de Morais Filho, brasileiro

Pacientes:

Cleiton Moreira Nunes, brasileiro Luis Paulo Leite Estevam, brasileiro Autoridade Coatora: Desembargador César Augusto Andrade de Castro, Relator da 9ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, nos autos do Habeas Corpus Criminal nº 2000694-61.2025.8.26.0000.

Processo de Origem: Ação Penal derivada do Auto de Prisão em Flagrante, tramitando perante a Comarca de Itanhaém/Peruíbe

Assunto: Tráfico de Drogas – Revogação da Prisão Preventiva – Constrangimento Ilegal – Violação aos Princípios Constitucionais e Processuais Penais.

EMENTA

HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE ENTORPECENTES. PRISÃO PREVENTIVA. INEXISTÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. AUSÊNCIA DOS REQUISITOS DO ART. 312 DO CPP. DESPROPORCIONALIDADE DA MEDIDA CAUTELAR. PRIMARIEDADE E CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS DOS PACIENTES. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DE MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS (ART. 319 DO CPP). VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA (ART. 5º, LVII, CF/88). CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. SÚMULAS 691/STF E 606/STJ. EXCEÇÃO À APLICAÇÃO EM CASO DE ILEGALIDADE PATENTE. CONCESSÃO DA ORDEM PLEITEADA.

DOS FATOS

Trata-se de Habeas Corpus impetrado em favor dos pacientes Cleiton Moreira Nunes e Luis Paulo Leite Estevam, atualmente segregados em razão de prisão preventiva decretada nos autos de processo penal oriundo de prisão em flagrante pela suposta prática do crime previsto no art. 33, caput, da Lei nº 11.343/2006 (tráfico de entorpecentes), ocorrido em 04 de janeiro de 2025, na Comarca de Peruíbe, Estado de São Paulo.

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo impetrou Habeas Corpus (nº 2000694-61.2025.8.26.0000) perante o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), pleiteando a revogação da prisão preventiva de Cleiton Moreira Nunes, sob o argumento de ausência de fundamentação idônea na decisão que manteve a custódia cautelar, bem como a possibilidade de substituição por medidas cautelares diversas da prisão, nos termos do art. 319 do Código de Processo Penal (CPP). Contudo, em 21 de fevereiro de 2025, a 9ª Câmara de Direito Criminal do TJSP, por unanimidade, denegou a ordem, sob relatoria do Desembargador César Augusto Andrade de Castro.

O acórdão recorrido entendeu que a prisão preventiva foi devidamente fundamentada na gravidade concreta do delito, na quantidade e variedade de entorpecentes apreendidos (215 porções de crack, 40 porções de cocaína e 46 porções de maconha), na tentativa de fuga dos pacientes e na necessidade de garantia da ordem pública, nos termos do art. 312 do CPP. Contudo, esta impetração demonstra que a decisão padece de graves vícios de legalidade e fundamentação, configurando patente constrangimento ilegal, a ser sanado por esta Corte Superior.

DO CABIMENTO DO HABEAS CORPUS

O presente writ é cabível nos termos do art. 5º, inciso LXVIII, da Constituição Federal de 1988 (CF/88), que assegura: “Conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”. Ademais, o art. 105, inciso I, alínea “c”, da CF/88 estabelece a competência do STJ para processar e julgar Habeas Corpus quando o coator for Tribunal de Justiça, como no caso em tela.

Embora a Súmula 691 do STF vede a análise de Habeas Corpus contra decisão monocrática que indefere liminar em HC em tribunal inferior, tal óbice é superado em casos de flagrante ilegalidade ou teratologia, conforme consolidado na jurisprudência do próprio STF e do STJ (HC 127.843/SP, Rel. Min. Celso de Mello, DJe 15/09/2015; RHC 141.852/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, STJ, DJe 10/03/2021). No presente caso, a manutenção da prisão preventiva sem fundamentação concreta e em desrespeito aos princípios constitucionais autoriza a superação da súmula.

DA ILEGALIDADE DA DECISÃO IMPUGNADA

  1. Ausência de Fundamentação Idônea (Art. 93, IX, CF/88 e Art. 315, CPP)

A Constituição Federal, em seu art. 93, inciso IX, exige que todas as decisões judiciais sejam fundamentadas, sob pena de nulidade. No mesmo sentido, o art. 315 do CPP determina que a decisão que impõe prisão preventiva deve ser motivada de forma concreta, indicando elementos do caso que justifiquem a medida extrema.

O acórdão do TJSP, embora mencione a apreensão de entorpecentes e a tentativa de fuga dos pacientes, limita-se a considerações genéricas sobre a “gravidade do delito” e a “garantia da ordem pública”, sem demonstrar, de maneira individualizada, como os pacientes representam risco concreto à sociedade. Tal fundamentação abstrata viola o entendimento consolidado do STJ:

“A prisão preventiva exige fundamentação concreta, baseada em elementos reais do caso, não se sustentando em meras conjecturas ou na gravidade abstrata do delito.” (STJ, HC 561.234/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª Turma, DJe 03/08/2020).

No caso, a quantidade de drogas apreendidas (67,5g de crack, 91,2g de cocaína e 174g de maconha), embora significativa, não é excepcional a ponto de justificar, por si só, a prisão cautelar, especialmente considerando a primariedade dos pacientes e a ausência de indícios de vínculo com organizações criminosas. A tentativa de fuga, por sua vez, não foi analisada em seu contexto – por exemplo, se decorreu de temor ou de intenção deliberada de obstruir a justiça –, o que demonstra a fragilidade da fundamentação.

  1. Inobservância dos Requisitos do Art. 312 do CPP

O art. 312 do CPP exige, para a decretação da prisão preventiva, a presença cumulativa de: (i) prova da materialidade; (ii) indícios suficientes de autoria; e (iii) ao menos um dos fundamentos cautelares (garantia da ordem pública, ordem econômica, conveniência da instrução criminal ou обеспечение da aplicação da lei penal). Embora a materialidade e a autoria estejam presentes em razão do flagrante, a decisão não demonstra, de forma concreta, a necessidade da medida.

A invocação da “garantia da ordem pública” foi baseada apenas na natureza do crime e na quantidade de drogas, sem указание (indicação) de elementos que revelem risco atual e específico de reiteração delitiva ou perturbação social pelos pacientes. O STJ já firmou entendimento de que:

“A prisão preventiva não pode ser decretada com base exclusivamente na gravidade abstrata do delito ou na quantidade de droga apreendida, sendo necessária a demonstração de risco concreto à ordem pública.” (STJ, HC 598.123/SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, 6ª Turma, DJe 15/09/2020).

Ademais, o acórdão desconsiderou que os pacientes são primários e não possuem antecedentes criminais, o que, aliado à ausência de prova de habitualidade delitiva, enfraquece a alegada necessidade de segregação.

  1. Desproporcionalidade e Violação ao Princípio da Presunção de Inocência

A prisão preventiva, como medida excepcional (art. 282, §6º, CPP), deve ser proporcional e subsidiária às medidas cautelares previstas no art. 319 do CPP. O TJSP rejeitou a substituição da custódia por medidas alternativas sem justificar, de forma específica, a insuficiência destas, limitando-se a afirmar que seriam “inadequadas à manutenção da ordem pública”. Tal posicionamento contraria o princípio da presunção de inocência (art. 5º, LVII, CF/88) e a jurisprudência do STF:

“A prisão cautelar é medida excepcional e só se justifica quando demonstrada a insuficiência de medidas cautelares diversas, em respeito à presunção de inocência.” (STF, HC 166.373/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, 2ª Turma, DJe 20/08/2019).

No caso, medidas como o comparecimento periódico em juízo, a proibição de frequentar determinados locais e o monitoramento eletrônico seriam suficientes para resguardar a instrução criminal e a ordem pública, especialmente diante da primariedade dos pacientes.

  1. Possibilidade de Tráfico Privilegiado (Art. 33, §4º, Lei 11.343/2006)

O acórdão do TJSP rejeitou a análise da possibilidade de aplicação do tráfico privilegiado sob o argumento de que tal exame configuraria “antecipação